Muito Além do Sofá, Esteban.

Eu já não sentia meus dedos, menos ainda meu rosto. O pior de tudo é que era quase impossível sair dali. Tenho certeza de que meu corpo sofreu um blackout por alguns minutos porque eu nada ouvia, nada via e muito menos sentia. Assim que voltei a minha órbita foi impossível não relembrar tudo que foi dito. Repassei cada frase, cada gesto, cada expressão vazia fui automaticamente voltando a esfregar as mãos na tentativa de me esquentar. Acabei por sentir mais do que as pontas de meus dedos, era aquele calafrio outra vez percorrendo todo meu corpo fazendo com que cada extremidade acabasse por continuar gelada. Me sentei no primeiro banco que havia naquela praça cheia de vazios e pensei no óbvio, qualquer pessoa normal ouviria todos aqueles desaforos, retrucaria e em seguida simplesmente iria embora. Quem sabe retrucaria mais alguns xingamento até não poder mais ser ouvida só para confortar a mágoa e se acalmar, mas não. Eu não consegui nem pensar em algo pra dizer, na verdade eu mal conseguia pensar. Me encostei deixando com que minha cabeça caísse para trás e fui preenchido por uma mistura de frio, choque e… Esperança. Fechei os olhos com uma tranquilidade anormal e tive certeza. Foi isso! A esperança que me deixou assim estático, catatônico. Fiquei mais uns quarenta minutos alimentando aquele sentimento estúpido, completamente crente de que ela voltaria pedindo desculpa ou ao menos voltaria em silêncio, me abraçaria num daqueles abraços que só ela sabe dar, daqueles que dizem mais que mil palavras. É. Era exatamente esse o motivo pelo qual eu simplesmente não conseguia ir pra casa. Mais uma vez fui estúpido o suficiente para me agarra a fantasia de que ela cairia em si e voltaria. Divaguei por mais alguns minutos, enquanto meu corpo ainda aguentava todo aquele frio. Romantizei cada possibilidade de volta, pensei em todos os filmes água com açúcar que já havia assistido e esperei. Acho que ali perdi mais uma hora, até meu queixo começar a bater, ironicamente parece que foram as batidas que eu precisava porque foi em meio a elas que a realidade resolveu gritar comigo. Meus lábios já estavam roxos, eu já não sentia meus pés, não conseguia mexer as mãos, todo meu esforço para manter o corpo quente era inútil. Fui forçado a deixar a esperança de lado para dar espaço a essa fria realidade. Ela era bastante escandalosa na verdade, eu  quem sempre escolhia ignora-la. Mas naquela hora não dava mais para fazer isso. A verdade era clara: Ela nunca voltaria, na verdade ela nunca quis estar ali. Acreditei que aquele frio todo era parte do inverno que ela havia trazido para minha vida. Fingi fazer um pequeno esforço para me levantar e sair dali mas não consegui, era obvio que eu já nem queria mais estar em outro lugar. Eu me deixei congelar. Completamente.

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“Te encontrar”, ModestiaParte.

Errei querendo acertar, errei sem me importar, errei por querer errar e errei sem nem saber que errava. Já fiquei por comodismo, já fiquei por dúvida, já fiquei querendo ir e já fiquei por nem saber onde ir. Jurei amores que não existiam, jurei amores pra não desapontar, jurei amores pra me sentir amada, jurei amores sem nem saber o que era isso. Menti pra proteger, menti pra me safar, menti pra não magoar, menti sem nem saber o que tava fazendo. Vivi por viver, vivi pra sobreviver, vivi pra não desapontar, vivi sem ter noção do que era vida. Me reinventei por mim, me reinventei pra não precisar mais inventar, me reinventei pra ser melhor, me reinventei porque te reencontrei, me reinventei sabendo exatamente o que eu quero. (você).

“Help Lose My Mind”, Disclosure. (Parte II)

Tem dias que acho que exagero demais nas palavras, e na forma que as expresso. Tem dias que palavra nenhuma chega perto de expor tudo o que eu sempre senti, tudo que sempre quis que enxergassem. Tem dias ainda piores em que nada mais faz sentido, nem os excessos nem as escassezes. Com certeza explicar que as coisas simplesmente mudavam num piscar de olhos era meu maior desafio. Afinal como eu explicaria que num instante eu queria dominar o mundo mas no instante seguinte era o mundo quem me dominava? Completamente. Acho que só quem passa por isso entende a agonia que é estar preso na própria mente, em uma briga constante. Cheguei ao ponto em que se eu não me abrisse com alguém o pior aconteceria, graças ao meu restinho de apego a vida eu consegui pedir ajuda mas absolutamente nada foi como eu esperava ou como eu planejava.

Sabe, o problema da vida alheia é que as coisas parecem muito mais fáceis já que as enxergarmos do lado de fora, não sentimos nada diretamente e nem somos nós quem aguentamos as consequências de cada escolha. Já problema da minha vida é que eu nunca conseguiria enxergar nada nessa posição tão tranquila e descomplicada que é a “de fora”. E o pior de tudo é que eu já não tinha mais paciência pra nada que viesse dela – a vida – ou de qualquer pessoa, qualquer uma. Mesmo assim me dispunha a ouvir isso, ouvir aquilo, seguir conselhos de um, de outro, daquele que também passou por “algo semelhante”. O que ninguém conseguia entender é que aquela era a minha vida e não a dos outros. Por mais que ela me fosse um fardo, eu sentisse como um desperdício total e outras milhões de coisas que não faziam o menor sentido, para os outros e até para mim mesma, era eu quem convivia com cada escolha, cada consequência e com o pior de tudo: Cada perturbação.

Tanto ênfase na “minha vida” não mudou absolutamente nada. Os conselhos vinham e iam, tanto dos que me queriam bem, quanto dos que eu percebi que simplesmente não me queriam. Enquanto isso duas pessoas na minha cabeça eram alimentadas, duas pessoas as quais me acompanharam por anos. Um lado me parecia ser o bom, tentava sempre resgatar algo agradável, algum vestígio de positividade, para que eu firmasse o passo e não desistisse. O outro lado queria me destruir. Me afastava de todos, me fazia explodir, me queria longe de tudo e de todos. No meio disso tudo tinha eu. Eu que não entendia nada mais, que não queria expor mais uma ‘loucura’ para as pessoas, que não queria cansar ninguém e. Sinceramente eu também já tinha alcançado minha cota de ouvir que eu ne fazia de vítima, que eu era maluca, que eu reclamava de barriga cheia “e que” mais um bilhão de coisas.

Resisti cada dia da forma que podia, aguentei como deu, fingi muito sorriso, sentimento, forjei muita felicidade. Sentia diariamente que eu deixava uma parte de mim pra trás. Não posso mentir que não tiveram dias bons, tiveram dias em que eu encontrava algo que servia perfeitamente como uma morfina, uma distração, coisas que momentaneamente me faziam sentir a pessoa mais feliz do mundo e eu acreditava que iria durar pra sempre. Eu queria ser artista, jornalista, psicóloga, escritora, veterinária… Até não querer mais. Eu queria mudar o mundo, ajudar os outros, fazer a diferença… Até não querer mais. Eu queria ser diferente… Até não querer mais. A inconstância vinha me roubando cada sonho, cada vontade, cada pensamento bom e eu já não queria mais nada, não queria mais explicar, sobreviver, fingir, estar ali…

“Help Lose My Mind”, Disclosure. (Parte I)

Pedir ajuda nunca foi meu forte, isso sempre me soou como um grito claro de fraqueza e vitimismo, quem sabe até de alguém que espera ser o centro das atenções. Essa era a ultima coisa que eu queria ser. Então eu me recusava a abrir minha boca. Aquela briga mental, em que um lado pedia para que eu expusesse de todos os jeitos possíveis o quanto eu precisava de alguém ali, contra aquela voz que insistia que seria perda de tempo ou coisa de gente mal agradecida. Talvez tenha sido essas vozes o motivo por eu ter chego onde cheguei: Ao fundo do poço.

Vou contar à vocês uma coisa, o fundo do poço é um lugar intrigante. Começando que cada pessoa tem seu poço. Cada pessoa chega lá de jeitos diferentes, por motivos totalmente distintos e em geral as pessoas acreditam que não há nada além de lá, que quem chegou até o fundo chegou no ápice da tristeza, depressão, fracasso ou qualquer outro sentimento que a derrubou. Mas vou te contar uma segunda coisa: Existe um espaço muito maior, que vai além do desse tal “fundo do poço”. Eu passei pela entrada, pelo meio, pelo fundo e quase me entreguei ao além, literalmente.

Essas situações não são algo que todos querem compartilhar, principalmente quem passou por algo assim e sabe do que estou falando. Mas talvez a atitude mais certa seja falar sobre e tentar ajudar, também prevenir, para que ninguém caia tão fundo, ou que se levante se já estiver caído. Custou muito para que eu aceitasse que pedir qualquer tipo de ajuda, ou recorrer a pessoas que tenho certeza que se importam comigo não seria um sinal de fraqueza mas sim uma das atitudes mais corajosas que eu poderia tomar. E foi isso que fiz.

No começo dói, no começo é frustrante perceber que ninguém é capaz de entender o que você sente por mais que sua explicação seja rica em detalhes. Não tem como por uma pessoa dentro dos nossos sentimentos, fazer com que elas não só enxerguem mas sintam como é difícil. O mais importante é que ao menos consigam perceber que não é frescura, não é vitimismo, não é comodismo, não é isso, não é aquilo. Simplesmente não é. É difícil, tem dias que a vontade de fazer diferente vem com tudo, tem dias que a vontade de sumir vem com mais força ainda. Mais uma vez a situação toda vai “mais além”.

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Meu esforço para não rotular todas e quaisquer situações vai ser grande, mas pela primeira vez estou falando abertamente de uma fase muito complicada da minha vida, uma fase que me levou a fazer coisas que eu jamais imaginei que poderia fazer. Talvez eu não alcance meu objetivo quando postar esses textos, porém sei que tenho mais chances se eu me abrir em algum lugar do que guardando para mim. Então em meio a textos menos realísticos, vou atualizando esses pessoais sempre com o mesmo título (help me lose my mind). Por enquanto, como venho aprendendo, um passo de cada vez, por menor que ele seja ele vale muito.

“Eu gosto dela”, Emicida.

Vamos fazer um trato? Eu não te solto, você não me solta. A gente se segura sempre. Se você pensar em cair eu vou estar ali te segurando para não deixar que isso aconteça, e sei que fará o mesmo por mim. Mas olha, tem que ser firme! Tem que ser firme, tem que resistir a tudo, tudo mesmo. Eu preciso de você. Preciso de você por perto, preciso de você por longe, preciso de você aqui e até preciso de você ali, mas preciso. De todas as formas e jeitos. É a tua mão na minha que me faz insistir, que me torna mais forte e me faz ter coragem de viver e enfrentar tudo. Então não me solta, eu não te solto.